COP26: Brasil precisa reduzir ilegalidade para ampliar investimentos sustentáveis na Amazônia

Publicado em InfoAmazonia | por Aldem Bourscheit


Rede de entidades privadas e civis elenca sugestões para que país alie desenvolvimento socioeconômico e conservação na floresta tropical.

Crédito: Daniela Vianna / BrazilClimateHub


Empresários, investidores e ambientalistas reforçaram na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP26) que a Amazônia só atrairá mais e melhores investimentos quando cessar a extração ilegal de recursos naturais. Entidades privadas listaram sugestões para aliar desenvolvimento socioeconômico e conservação na floresta. Uma delas é ampliar os critérios socioambientais para que produtos estejam livres de desmatamento e destruição de florestas, o que começa a ganhar escala no comércio internacional

“Mais de 90% do desmatamento na Amazônia brasileira é ilegal e quase metade desse total é criminoso, dentro de terras indígenas e unidades de conservação. Na região também há cerca de 14 milhões de hectares de Cadastros Ambientais Rurais em áreas protegidas. Esse não é um ambiente seguro para atrair investimentos sustentáveis”, ressaltou André Guimarães, diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), na palestra “Investindo na Conservação da Amazônia: Inovações de Mercado para Escalar Impacto”, realizada no Brazil Climate Hub.


Mais de 90% do desmatamento na Amazônia brasileira é ilegal e quase metade desse total é criminoso, dentro de terras indígenas e unidades de conservação. Na região também há cerca de 14 milhões de hectares de Cadastros Ambientais Rurais em áreas protegidas. Esse não é um ambiente seguro para atrair investimentos sustentáveis. - André Guimarães, diretor-executivo do Ipam


Preservar a floresta e outros biomas reduzirá os riscos de aplicações financeiras diante das alterações globais do clima e outros fatores socioambientais, disse Jenny Xia, analista de riscos climáticos da Wellington Management, companhia de Boston (Estados Unidos) que gerencia US$ 1,4 trilhão em investimentos (R$ 7,7 trilhões). “Empresas incorporam cada vez mais análises de riscos climáticos e a rastreabilidade das cadeias de suprimentos no momento de investir. Áreas sob maior risco climático tendem a receber menos recursos. E o desmatamento amplia secas e queimadas e prejudica ainda mais as comunidades que dependem da floresta”, destacou.


Essa consciência pode começar no mercado consumidor. Dario Guarita Neto, representante da fornecedora de madeiras certificadas Amata e da investidora Ecoa Capital, ressalta que consumidores – sejam eles pessoas físicas, governos e empresas – serão maiores aliados na preservação da Amazônia quando exigirem produtos com origem legalizada. “Isso traz grandes oportunidades para que mercados conectados à preservação da floresta ganhem escala. Isso também pode levar o padrão de consumo da sociedade brasileira a patamares sustentáveis. Nossos investidores querem atuar onde a lei é aplicada”, destacou o empresário.


Ilona Szabó, diretora-executiva do Instituto Igarapé, concorda e acrescenta que as empresas deveriam ser responsabilizadas por comprar produtos manchados pelo desmatamento. “Cerca de 17% da carne e 20% da soja exportadas do Brasil estão contaminadas por desmatamento ilegal. Parte da cadeia de commodities se alimenta de crimes socioambientais. Esse é um custo da exploração de recursos naturais na Amazônia e em outras regiões. Investidores nesses setores deveriam ser responsabilizados pelos impactos do que financiam”, defendeu.


O documento abraça a complexidade da região. Manteremos o fervor da conversa para que a sociedade participe deste debate sobre a Amazônia. - Roberto Waack, presidente do Conselho do Instituto Arapyaú.


Atentos aos riscos para negócios provocados pela crise do clima, pelos impactos da produção de commodities e da exploração de recursos naturais na Amazônia, empresas globais já endureceram critérios ambientais e sociais para manter o comércio com o Brasil. As companhias que compram 60% da soja que chega ao Reino Unido declararam que, até 2025, deixarão de adquirir o grão produzido em áreas desmatadas ou convertidas de pastagens para lavouras após janeiro de 2020. Em outubro, repetidas falhas brasileiras na proteção da biodiversidade e da Amazônia emperraram um acordo comercial negociado há duas décadas entre Mercosul e União Europeia.


Corporações ligadas ao Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) também defendem ações mais efetivas dos governos para que o país tenha um ambiente de negócios alinhado ao enfrentamento da crise climática, da preservação de ambientes naturais como a Amazônia e da proteção de populações ancestrais, tradicionais e rurais. “Nós não só sabemos combater as mudanças climáticas como já temos as soluções. O setor empresarial brasileiro tem adotado ações corporativas concretas, como o preço interno de carbono e as metas de neutralização, assim como está liderando iniciativas de políticas climáticas públicas com instrumentos de mercado e inclusão social”, destacou em carta a presidente do CEBDs, Marina Grossi.


Mais de 400 entidades privadas e ambientalistas, cientistas e bancos levaram à COP26 sugestões para que a Amazônia tenha um desenvolvimento ancorado em economias que mantenham a floresta viva. O documento “Uma Agenda pelo Desenvolvimento da Amazônia” amarra questões climáticas e de desenvolvimento, conservação, direitos de indígenas e quilombolas.


As ações são focadas em 4 áreas, que eles chamam de “Quatro Amazônias”: áreas conservadas, em transição, já convertidas (em pastagens ou lavouras) e urbanas. “O documento abraça a complexidade da região. Manteremos o fervor da conversa para que a sociedade participe deste debate sobre a Amazônia”, ressaltou Roberto Waack, presidente do Conselho do Instituto Arapyaú.


ALGUMAS DAS SOLUÇÕES PARA A AMAZÔNIA


– Políticas e programas direcionados à população jovem, com estímulo à economia criativa e solidária com a floresta;

– Estímulo à bioeconomia, com a revisão das métricas de desempenho econômico para incorporar o capital natural e agregar mais valor aos produtos do extrativismo;

– Incentivo à economia regenerativa, às soluções baseadas na natureza e ao pagamento por serviços ambientais que garantam a subsistência dos povos da floresta;

– Contenção da grilagem, do desmatamento e das ilegalidades com maior fiscalização, implementação do Código Florestal e destinação de terras públicas à conservação. Fonte: Uma Concertação para a Amazônia


Um dos pontos destacados na agenda são as soluções baseadas na natureza para conter os efeitos da crise climática nas cidades. Um estudo veiculado na revista One Earth avaliou que aproveitar esses serviços naturais é mais barato e pode prolongar a vida útil de projetos de infraestrutura em litorais, margens de rios e outras áreas na mira de tempestades e enchentes. Uma análise da ONG União Internacional para a Conservação da Natureza reforça que a humanidade só alcançará um desenvolvimento sustentável e combaterá a crise do clima ampliando a área protegida global.


Diante de comprovações como essas, a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira reforçou que “soluções do passado não têm futuro” se quisermos uma Amazônia e um Brasil com novos valores. Destacou que o mundo terá muito a fazer após a COP26, que tenta aparar arestas entre os países para manter o aquecimento global médio abaixo dos 2ºC. “É evidente que não basta mais falar só entre governos. A sociedade terá que estar preparada para se engajar, tomar decisões e se responsabilizar por elas”, destacou.


Reportagem do InfoAmazonia para o projeto PlenaMata.


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