Jaider Esbell exigiu presença de mais artistas indígenas na Bienal

Publicado por Ecoa/UOL | Por: Juliana Domingos de Lima, De Ecoa, em São Paulo (SP)



Crédito: Márcio Lavôr


O neto de Makunaimã pede para não ser chamado de artista plástico. Prefere a alcunha de artivista, termo que une a arte e a militância no movimento indígena. Além da arte que produz há mais de uma década, ele é um articulador: provoca outros artistas indígenas a criarem e se posicionarem.


É esse o trabalho de Jaider Esbell, artista macuxi que assina obras expostas na 34ª Bienal de São Paulo, aberta ao público de setembro a dezembro de 2021, assim como a curadoria da mostra de arte indígena contemporânea "Moquém_Surarî", em cartaz até 28 de novembro no MAM, vizinho à Bienal no Parque do Ibirapuera.


Muito por reivindicação de Esbell, outros oito artistas indígenas compõem a curadoria da Bienal este ano, entre eles Daiara Tukano, Sueli Maxakali e Gustavo Caboco.


Enfatizando que a exposição realizada há 70 anos ocorre em território guarani, ele considera como reparação histórica mínima a presença de mais artistas indígenas na programação do evento.


Esbell afirma que essa presença tem permitido trazer com pluralidade e densidade as questões urgentes para o movimento indígena hoje, como a rejeição do Marco Temporal pelo Supremo. Em uma mobilização histórica, o julgamento da ação levou recentemente milhares de indígenas de todo o país a Brasília.


O artista conecta a causa indígena à urgência ecológica, que diz respeito a todos no mundo de hoje: "A luta dos povos originários pela natureza lá em Brasília é de todos os brasileiros, de toda a humanidade. Já está provado que onde tem território demarcado tem floresta viva. O Pavilhão da Bienal e o MAM são, num determinado aspecto, a mesma coisa que o Planalto Central. Estamos levantando todas essas vozes, potências e saberes, estudando estratégias de comunicação e de linguagem para que as pessoas não indígenas entendam que a pauta indígena não é exclusivista, por privilégios", diz a Ecoa.


'O indígena sempre fez arte' Um dos nomes de destaque da arte contemporânea brasileira hoje, Esbell percorreu um longo caminho para produzir e divulgar seu trabalho.


"Nunca fiz curso de arte, nem estou afim de fazer. Trabalho muito nesse campo do artivismo, na ideia de levar o movimento indígena de raiz, que luta desde o primeiro índio que flechou o navio de Cabral. É uma luta contínua por identidade e respeito. A gente sempre fez arte e não precisava do europeu para entender o sentido, a função dela. Arte pra nós é fundamental, é origem. Índio e arte nascem juntos. Não com esse nome, mas com todas as funções que a ideia de arte tem".


Nascido em 1979 em Normandia, no estado de Roraima, onde hoje se localiza a Terra Indígena Raposa-Serra do Sol, ele teve sua sensibilidade artística "ativada" ainda na infância pelo avô, que lhe narrava fragmentos da cosmologia macuxi, como a história de Makunaimã.


A narrativa do herói se tornou conhecida por não indígenas porque foi registrada no início do século 20 pelo etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg. Foi então transformada no romance modernista "Macunaíma, o herói sem nenhum caráter" por Mário de Andrade em 1928. Em várias de suas obras, Esbell reclama a figura de Makunaimã como parte da cultura e ancestralidade indígenas. E se afirma como seu neto.


Foi Makunaimã o tema do projeto que o levou a ganhar, pela primeira vez, um incentivo público para produzir arte, em 2010. Premiado com a Bolsa Funarte de Criação Literária, escreveu "Terreiro de Makunaima - mitos, lendas e estórias em vivências", lançado em 2012. Na mesma época, realizou de maneira independente a primeira exposição em sua cidade natal, Normandia.


"Eu queria entender o que restou do nosso mundo, onde estão diluídas essas práticas, esses saberes, na cultura dominante. Foi essa minha linha de pensamento crítico, desde sempre, que reflete também no meu posicionamento integral de defesa do território [indígena], por mais absurda que possa parecer a ideia de defender, porque a terra sempre foi nossa e sempre será".


Nos anos seguintes, realizou a itinerância da coleção de desenhos "It was Amazon/Era uma vez Amazônia", com a qual viajou para várias partes do país e em que denuncia práticas como desmatamento, garimpo e exploração sexual de jovens e crianças indígenas.


Esbell também passou uma temporada de oito meses nos Estados Unidos em 2013, expondo e dando aulas. A partir do mesmo ano, realizou em Boa Vista por três anos o Encontro de Todos os Povos, que reuniu a arte tradicional e contemporânea dos povos indígenas da região. "Muitos parentes começaram [na arte contemporânea] bem antes de mim. Eu venho pra organizar, juntar, potencializar isso", diz.


Foi a partir das obras comissionadas e coletadas para os encontros que o artista criou a Galeria Jaider Esbell de Arte indígena Contemporânea, espaço independente em sua casa em Boa Vista voltado a agregar e difundir o trabalho de artistas indígenas.


Formado em Geografia na Universidade Federal de Roraima, Esbell foi durante anos funcionário da Eletronorte, estatal do setor elétrico. Somente em em 2016 pôde se desligar da empresa para se dedicar integralmente à carreira de artista.


Atuando também como galerista e curador, Esbell considera que um dos seus papéis é contribuir para valorizar o trabalho de indígenas no mercado de arte. "Não vamos passar a vida toda vendendo colarzinho de R$5 na beira da estrada, que não dá nem pra comprar uma lata de óleo, e passando as nossas histórias de graça sem nada chegar pra gente. Acho que já deu", diz.


O neto de Makunaimã avisa ainda que os artistas indígenas entraram para ficar no circuito de arte tradicional: "Fizemos uma performance declarando que essa é a década da arte indigena contemporânea, que é a Bienal dos índios, pra ver se todo mundo entende que a gente não é moda, a gente não está aqui de passagem. Vamos estar todos os anos e cada vez vão chegar mais".

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