Movimento indígena do Rio Negro exige mudanças na Funai durante mobilização

Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) se uniu ao ato de servidores e também pediu a exoneração do presidente Marcelo Xavier e justiça por Dom Phillips e Bruno Pereira


Por Ana Amélia Hamdan - Jornalista do ISA


Movimento indígena do Rio Negro exige mudanças na Funai durante mobilização
Crédito: Ana Amélia Hamdan/ ISA

Uma manifestação multiétnica, com discursos nas línguas Yanomami, Tukano e Baniwa, e organizada pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), se somou à mobilização de servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai) em São Gabriel da Cachoeira, no Noroeste do Amazonas, nesta quinta-feira (23/6).


Em várias partes do país, aconteceram protestos pelo crime bárbaro contra o jornalista Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira e pela saída do presidente da Funai, Marcelo Xavier.


Cerca de 120 pessoas, entre lideranças indígenas, professores, mulheres, crianças e indigenistas participaram do ato em frente à Coordenação Regional do Rio Negro (CR-RNG) da Funai. Em seguida, os manifestantes seguiram em passeata até a Maloca/Casa do Saber, na sede da Foirn. Protestos aconteceram ainda em Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, municípios da região do Rio Negro.


Diretor-presidente da Foirn, Marivelton Barroso, do povo Baré, disse que os indígenas do Rio Negro querem ser reconhecidos por sua riqueza multiétnica, mas demandam políticas públicas e segurança para o território e reforço na estrutura da Funai. “Estamos fazendo o papel do Estado. Foi assim durante a pandemia, no combate à Covid-19, e está sendo assim para garantir a segurança nos nossos territórios”, disse.


Falando em nome dos 23 povos indígenas da região do Rio Negro, Marivelton Baré leu uma carta-manifesto da Foirn contra o desmantelamento da política indigenista no Brasil, denunciando o enfraquecimento proposital das iniciativas de proteção e monitoramento territorial — o que abre espaço para pressão do garimpo e do narcotráfico, atrapalhando as atividades da economia sustentável.


“Nos últimos três anos, as invasões aos territórios indígenas no Rio Negro aumentaram vertiginosamente. Existem no momento registrados pela Funai Rio Negro 10 denúncias de garimpos ilegais na região, assim como denúncias crescentes da atuação do narcotráfico em vários afluentes da margem direita do Rio Negro, como os rios Marié, Téa, Jurubaxi e Uneuixi. A atuação de bandidos na região afeta as atividades produtivas sustentáveis dos povos indígenas, como o turismo de base comunitária e a agricultura, além de trazer medo e insegurança para as comunidades indígenas”, afirma o texto.


São Gabriel da Cachoeira é conhecida por ser a cidade com maior concentração de população indígena no país, reunindo povos como os Baniwa, Tukano, Baré, Yanomami, Arapasso, Tuyuka e Piratapuya.


Com pintura tradicional, o tuxaua Carlos Lopes, do povo Yanomami, morador da comunidade de Maturacá, fez um duro discurso em sua língua, alertando para os constantes ataques dos homens brancos.


A liderança demonstrou tristeza pela morte de Dom e Bruno e se disse preocupado com o avanço do garimpo ilegal e com a morte de crianças. “Eu sou Yanomami real. Quando foi criado o Brasil, já existia Yanomami verdadeiro. Mas como o branco veio querendo destruir a gente?”, questionou.


Presentes no protesto, lideranças femininas denunciaram a falta de políticas públicas e pediram mais saúde, segurança e educação para os indígenas. Diretora da Foirn, Janete Alves, do povo Desana, falou na língua indígena Tukano.


“A gente tem nosso direito, a gente tem nosso Planto de Gestão Territorial e Ambiental, é nosso plano de vida, a gente quer implementar e por isso estamos lutando. Peço o fortalecimento das mulheres, estamos lutando contra a violência. Queremos respeito a nossos direitos e queremos fortalecer o bem-viver dos povos indígenas do Rio Negro”, ressaltou.


A professora e liderança Auxiliadora Fernandes, do povo Dâw, mobilizou estudantes para que participassem do ato. O povo Dâw vive na comunidade Waruá, em frente à principal orla de São Gabriel, e para chegar à cidade precisa atravessar trecho do Rio Negro. Já durante a travessia, o grupo veio levantando faixas de frases de protesto, cobrando seus direitos.


No ato em São Gabriel, os servidores da Funai leram também uma carta-manifesto, intitulada “Nenhuma gota de sangue a mais”. Além de manifestarem profunda tristeza e indignação pelo crime contra Dom e Bruno, os indigenistas cobraram responsabilização dos culpados e exigiram melhoria na estrutura de trabalho e segurança para a execução de atividades para promover e proteger os direitos dos povos indígenas.


Estiveram à frente da mobilização a Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef/Fenadsef), a Associação Nacional dos Servidores da Funai (Ansef) e a Indigenistas Associados (INA), que pedem a saída do atual presidente da Funai, Marcelo Xavier.

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