Organizações indígenas do Amazonas unem-se em Retomada Coletiva e lançam carta com reivindicações

Voltada a fortalecer movimento indígena, a mobilização reuniu mais de 500 indígenas de 22 povos e 80 organizações indígenas de 26 municípios do Amazonas para enfrentar políticas anti-indígenas


Publicado em CIMI | por Lígia Kloster Apel, da assessoria de comunicação do CIMI Norte I

Organizações indígenas do Amazonas unem-se em Retomada Coletiva e lançam carta com reivindicações
Crédito: Steffanie Schmidt

“Nossa retomada se faz diante de um cenário crítico e preocupante, onde os direitos conquistados estão sendo desconsiderados e destruídos. Nesse sentido, buscamos apresentar nossas demandas e propostas para a implementação de políticas públicas que respeitem a nossa diversidade étnica, nossos corpos e nossa ancestralidade”.


Assim começa o documento final do encontro de dois dias que reuniu os povos Apinagé, Arapaço, Apurinã, Baré, Baniwa, Dessana, Kambeba, Kanamari, Kaxinawam, Kokama, Matsés, Munduruku, Mura, Miranha, Sateré-Mawé, Tariano, Tikuna, Tukano, Tupinambá, Yanomami, Waimiri-Atroari, Warao, representados por suas lideranças e tuxauas (caciques) e 80 organizações indígenas de 26 municípios do estado do Amazonas, que aconteceu nos dias 30 e 31 de março, na Chácara Abraço Verde, em Manaus.


Batizado de Retomada Coletiva do Movimento Indígena no Amazonas, o encontro é um dos passos que estão sendo dados para a mobilização e fortalecimento das organizações, lideranças e comunidades indígenas no estado. O tema do movimento é o “protagonismo e autonomia pelo bem viver dos povos indígenas” e seu objetivo é “unificar e fortalecer o movimento indígena do Amazonas em defesa dos direitos coletivos”.


Diante do cenário de ataque contra os direitos indígenas instaurado pelo Estado brasileiro, no qual o presidente da República coloca-se abertamente contra a existência dos povos originários, os organizadores entenderam que só unidos conseguirão enfrentar e derrotar quem quer derrotá-los. “Estamos em guerra, e vamos lutar até vencer”, foi o uníssono do encontro.


Analisando a história de investidas contra os povos indígenas, os participantes contextualizaram as estratégias utilizadas para destruir a vida indígena e mostram, no documento, a crueldade com que as políticas anti-indígenas avançam. “Historicamente, os governos têm promovido políticas genocidas de uma forma covarde. Agora, não mais com armas, mas com projetos etnocidas que promovem a desvalorização de nossas culturas, implantam conflitos e trazem discórdia e destruição aos nossos territórios”.


“Essa realidade se tornou ainda mais cruel no contexto do atual governo federal, onde as leis e políticas de proteção territorial, de saúde e educação não são respeitadas”, salienta o documento. “Estamos morrendo nas mãos de invasores, com nossos rios poluídos e terras devastadas. As lideranças indígenas de diversas localidades estão sendo criminalizadas e perseguidas pelo Estado brasileiro por lutarem e denunciarem o desrespeito aos direitos indígenas”.


Marcivana Sateré Mawé, integrante da Coordenação das Organizações dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime) e uma das organizadoras do evento, fala que apesar do Amazonas ser um estado cuja população é significativamente indígena, não há política específica destinada a estes povos, porque não há reconhecimento da pluralidade étnica de sua população. A consequência dessa negação, avalia, é impiedosa.

“Tem poucas políticas públicas direcionadas para as populações indígenas, de fortalecimento dos nossos territórios, da sustentabilidade, do acesso a saúde, a educação. São esses fatores que obrigam os indígenas a saírem de seus territórios e irem para a cidade, atrás dessas políticas. Mas se nós, que já estamos aqui na cidade de Manaus, sentimos que o fato de estar na cidade não garante o acesso a esses serviços, imagine para quem vem das aldeias, não fala o português direito, não sabe como ou onde procurar esses serviços”, diz Marcivana.


A liderança considera que retomar a caminhada e reorganizar o movimento indígena, nesse momento, é uma questão de sobrevivência. “É preciso criar uma estratégia de fortalecimento porque o impacto maior quem sofre é quem está lá na ponta, para quem não chegam as políticas de reconhecimento. Então, o movimento tem esse objetivo de unificar, de criar estratégias de fato para o bem viver dos povos indígenas, mas um bem viver que seja abrangente que chega lá na aldeia”, afirma.


Para o cacique João Ferreira de Souza Sateré Mawé, do município de Barreirinha, as principais reivindicações envolvem melhorias na educação, na saúde e na agricultura. “Essas três coisas”, diz seu João, “são fundamentais para os indígenas”.


Ele explica que a educação é um tema central, pois é através da formação escolar que é possível enfrentar o sistema e afirmar a identidade indígena. “O sistema é muito forte, ele destrói. O sistema tem várias maneiras de cooptar os pais, oferecendo emprego, vida melhor. Mas aí, os pais deixam as crianças sozinhas, indefesas, e sem a possibilidade de crescer na sua identidade. Por isso que a cada dia, a cada hora, a cada minuto tem que ser fortalecido por si próprio, identificando-se com seus direitos, se aprimorando para que as crianças realmente possam se criar na coisa real, dizendo que somos povo originário e temos plenos direitos em tudo. A Constituição nos garante. Mas, precisa ser escolarizado no sistema ocidental porque só assim vamos conhecer leis, conhecer números, ser geólogo, advogado, antropólogo. Em qualquer área o conhecimento deve ser de igual para igual, para que os índios possam se defender, mas mantendo sua origem, e se identificando na sua língua”, conclui.


A professora Alva Rosa, do Fórum da Educação Escolar e Saúde Indígena do Amazonas (Foreeia) e também uma das organizadoras da Retomada Coletiva, comenta que cada organização está fazendo a sua parte em suas localidades na luta contra as atrocidades desencadeadas contra os povos indígenas. “O levante foi necessário para expandir o movimento em todo o estado. Diante de tantos retrocessos das políticas públicas de âmbito municipal, estadual e federal, pensamos em retomar as articulações a nível estadual e chamar as diferentes regiões para essa grande luta”, explica.


Reforçando que esta deve ser uma luta coletiva, de “fazer juntos”, a professora destaca que a necessidade é de “realizar um protagonismo pelo bem viver indígena no sentido de que seja feito a partir de nós mesmos, tendo como princípio a nossa ação, o nosso levante”, afirma. “Nós sabemos fazer e vamos mostrar como se faz, vamos debater sobre quais são as políticas que queremos de fato para os povos indígenas, e com a autonomia necessária”.


Nessa perspectiva, Alva Rosa avalia que o evento superou expectativas. “A partir desse objetivo podemos dizer que o nosso encontro teve uma avaliação positiva e que foi além da nossa expectativa. Muitas pessoas ouviram o chamado e vieram, tanto é que essa nossa mobilização não teve financiamento do governo federal, municipal e estadual. Ela teve o autofinanciamento das organizações que vieram e participaram, e tivemos o apoio dos parceiros indigenistas que nos ajudaram. Alcançamos o nosso objetivo que era unificar e fortalecer o movimento indígena” conclui.


Parcerias são necessárias


Nara Baré, coordenadora geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), relatou o processo histórico de articulações do movimento indígena do Amazonas e disse que o nome deste movimento não poderia ser outro: “Retomada. Sempre é preciso ter um novo início, um novo recomeço e o nome não poderia ser melhor do que retomada do movimento indígena do estado do Amazonas. Ele foi o berço de toda uma articulação para a própria criação da Coiab e de várias organizações em defesa dos direitos dos povos indígenas da Amazônia brasileira”, explica.


A Baré destaca a participação das mulheres no evento e comenta que a característica essencial de uma articulação deve ser a inclusão. “Foi importante ver a participação de mulheres e é importante frisar que foi uma retomada encabeçada, puxada pelas mulheres, junto com os jovens e trazendo os homens, os mais velhos, ou seja, não excluiu ninguém, mas foi inclusiva. Uma retomada deve ser dessa forma, incluir a todos, fazendo com que todos se sintam parte. Porque se for só um grupo, a gente não vai conseguir avançar e enfrentar o que está posto em termos de políticas para os indígenas”, destaca. “É no coletivo que o movimento tem vida e, por isso, a Coiab não poderia deixar de estar presente e dizer que é parceira e está apoiando esse processo de construção coletiva”.


Francisco Guenter, representando o Regional Norte I do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), participou do evento. “O Cimi apoiou a mobilização por sua relevância no atual contexto político, de sistemática violação aos direitos indígenas, e por sua importância para o avanço do movimento indígena no Amazonas, na construção de ferramentas próprias para facilitar a articulação em torno de lutas comuns”, aponta ele.


Guenter compartilha com Nara a percepção de que a coletividade é a essência da mobilização e que a sua força impulsiona para a luta e o enfrentamento da situação.


“O evento mostrou a capacidade de mobilização dos povos indígenas do Amazonas para o enfrentamento da política anti-indígena de Bolsonaro, rechaçando o chamado marco temporal, que tem como objetivo o esbulho definitivo das terras indígenas não demarcadas e o [Projeto de Lei] PL 191/2020, da mineração, que representa uma grave ameaça à vida das comunidades indígenas em seus territórios. Também foi dado um passo importante para avançar no processo organizativo dos povos indígenas no estado para a conquista e consolidação de seus direitos”, conclui.


Caminhar é preciso


A Retomada Coletiva do Movimento Indígena no estado do Amazonas começou no dia 8 de março, com a Marcha das Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas. Mais de 300 mulheres indígenas se reuniram, debateram, conversaram, trocaram, marcharam pela cidade, soltaram a voz denunciando violações de direitos e exigindo respeito a suas vidas.


O encontro do dia 31 culminou, também, com a Marcha dos participantes pelas ruas de Manaus para mostrar à sociedade que há resistência indígena e que não vão se entregar ou se integrar a uma sociedade que desrespeita seus modos de vida.


Com suas vozes ecoando, os gritos de ordem comandavam a marcha com fortes expressões em defesa da vida indígena: “vidas indígenas importam”, “ Nada para nós, sem nós” e “Avançaremos!”.


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