Yanomamis: mortes por doenças infecciosas subiram 117% de 2016 a 2021

Os óbitos são causados, sobretudo, por malária. Nos últimos cinco anos, número de mortes aumentou. Crianças são as principais vítimas


Por: Karolini Bandeira para Metropoles


Homem indígena com máscara escrito SOS - covid Amazônia
Crédito: Rafaela Felicciano/Metrópoles

A presença de garimpo ilegal não é a única ameaça à população indígena Yanomami. A contaminação por doenças infecciosas, como malária e tuberculose, mais do que dobrou nos últimos seis anos. Conforme dados obtidos pelo Metrópoles, houve crescimento de 117,6% na quantidade de mortes por enfermidades infecciosas, entre 2016 e 2021 – embora, no ano passado, tenha havido queda do número recorde de 2020.


Foram registrados, ao todo, 170 óbitos por infecções no período de 2016 a 2021. Os dados são da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), fornecidos via Lei de Acesso à Informação (LAI). Veja abaixo, ano a ano:


2016: 17

2017: 21

2018: 21

2019: 29

2020: 45

2021: 37


Os números de 2020 e 2021 são preliminares e podem mudar em consultas futuras. A quantidade pode ser ainda maior do que a registrada, já que existem povos 100% isolados entre os Yanomamis, e o acesso à saúde não é integral no território.


Entre as doenças, destacam-se malária, diarreia e gastroenterite infecciosa, sepse, tuberculose, pneumopatia, tungíase, sarampo e Covid-19. Dos 170 mortos, 85 eram mulheres e 85 homens. Menores de idades foram a maioria – com a ocorrência de 120 óbitos nos cinco anos.


Os Yanomamis vivem na maior terra indígena do Brasil, com quase 10 milhões de hectares, e formam uma comunidade de quase 30 mil pessoas, distribuídas em 366 aldeias em Amazonas e Roraima. Cerca de 0,6% da população morreu por infecção no período citado.


“É pior do que parece”, diz líder


Para o líder indígena e presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kwana, Júnior Hekurari Yanomami, os dados estão subestimados. “Em 2020, tivemos mais de 95% da população Yanomami com malária. Estávamos com 28 mil indígenas, e toda a população sofreu. Muitos morreram”, afirma.


Ao ter conhecimento dos dados fornecidos pela Sesai, Hekurari demonstrou indignação. “Não sei como chegaram a esse número. Apenas na minha microrregião, conheço 80 que morreram por malária no último ano.”


Hekurari diz acreditar na existência da manipulação de dados e informações sobre os povos Yanomami. “Foi bem mais do que o divulgado. A situação é muito pior do que parece. E eu convivo com isso.”


De acordo com gráfico (imagem abaixo) fornecido ao Metrópoles pelo Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (DSEI Y), uma unidade de responsabilidade sanitária federal, 1.594 pessoas acima dos 5 anos morreram entre 2016 e 2021. Isso significa que quase 11% do total foi em decorrência de doenças infecciosas.

O Metrópoles questionou o Distrito Sanitário sobre os supostos óbitos não divulgados por malária no território, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.


Malária


A explosão de casos de malária nas tribos foi denunciada em relatório publicado em abril pela Hutukara Associação Yanomami. Conforme o documento Yanomami sob ataque!, em 2020, houve mais de 1,8 mil registros apenas na aldeia de Palimiú (RR), zona de forte atuação garimpeira.


“Destaca-se que a população total do Palimiú, no mesmo ano, era de pouco mais de 900 pessoas, ou seja, os dados apontam para uma média de quase duas contaminações de malária por pessoa”, aponta a organização.

O texto salienta que a doença não compromete apenas a saúde individual do doente, “mas também a economia das comunidades, que dependem da força de trabalho familiar para produzir sua subsistência”.


O aumento de casos nos anos analisados pela reportagem também é exposto no gráfico abaixo, fornecido pelo DSEI Y. O maior registro é de 2020, com 27.087 contaminações. O número equivale a quase toda a população de 29.633 indígenas.


Há, na reserva, alta ocorrência de malária P. falciparum, considerada a espécie mais grave da doença. “Tratamos esse caso de malária como uma emergência médica. É necessário atendimento imediato com certa urgência”, destaca o infectologista do Hospital das Forças Armadas Hemerson Luiz.


No início, o infectado sente calafrios, febre alta e contínua, dor muscular, dor de cabeça e coração acelerado. “Com a evolução, pode-se ter quadro grave de malária cerebral, com rigidez na nuca, vômitos, convulsões e óbito”, explica o médico.


Abandono e garimpo


Tratamento imediato, no entanto, não é uma possibilidade para a maioria dos Yanomamis. Das mais de 360 aldeias, somente 78 possuem Unidade Básica de Saúde Indígena (UBSI).


Segundo dados do DSEI Y, o tempo de caminhada ou de barco, no trajeto de uma aldeia ao posto de atendimento mais próximo, pode chegar a mais de 2h30.


Há também comunidades que não possuem rios próximos e são tão distantes das UBSIs que o único meio de transporte possível é helicóptero. É o caso da aldeia Lixinapi (RR). Entretanto, a falta de transporte aéreo governamental é outro empecilho para quem mora na região.


Não apenas helicópteros, faltam também médicos e medicamentos nos postos. Essas foram as denúncias feitas por indígenas em reunião do Conselho Nacional de Saúde (CNS) realizada em março.


Como representante do Ministério Público Federal (MPF) no encontro, o procurador Alisson Marugal expôs que, desde 2019, o DSEI Y não tem contrato para serviços aéreos.


“A falta de transporte aéreo deixa algumas aldeias sem serviços médicos por seis meses e, pelo menos nos últimos dois anos, não se faz saneamento básico no território por falta dessa estrutura de logística”, afirmou Marugal.


Ao Metrópoles Júnior Hekurari apontou falta de estrutura médico-hospitalar adequada nos postos de saúde. De acordo com o indígena, as unidades não têm equipamento nem profissionais treinados para exercer os atendimentos. “Há comunidades que ficaram sem atendimento durante anos. Muitos morreram por falta de profissionais de saúde. Faltam atendimento e ação.”


A negligência do Estado se soma à ação do garimpo ilegal na reserva. Informações recentes indicam haver quase a mesma quantidade de garimpeiros e indígenas no território. “Com o crescimento do garimpo, aumentaram também os casos de malária. Os garimpeiros trouxeram a malária e a desnutrição, doenças que nunca foram do nosso local”, afirma Hekurari.


A associação entre garimpo e adoecimento dos indígenas não é nova. Um estudo de 2019 realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) com os Yanomamis apontou que a contaminação por mercúrio, utilizado por garimpeiros, compromete a saúde da população.


Em reportagem recente, o diretor da entidade Hutukara, Maurício Ye’kwana, relatou ao Metrópoles que os garimpos ilegais tornam o local de vivência uma terra sem lei. O representante relaciona os garimpeiros a doenças, uso de drogas e abusos sexuais.


O que diz o Ministério da Saúde?


Em resposta ao Metrópoles, o Ministério da Saúde informou não haver problema na assistência médica prestada aos Yanomamis. Segundo o órgão, nos últimos três anos, foram investidos cerca de R$ 216 milhões em ações de saúde no respectivo Distrito Sanitário Especial Indígena.


Confira a nota na íntegra:


“O Ministério da Saúde informa que foram registrados no DSEI Yanomami 37 óbitos relacionados a doenças parasitárias e infecções. Não há problema na assistência médica prestada aos indígenas da etnia. O Distrito Yanomami é o que mais recebeu recursos do Ministério da Saúde para prevenção, promoção e recuperação da saúde do seu povo. Nos últimos três anos, a Sesai investiu R$ 216 milhões em ações de saúde no DSEI Yanomami. Em 2021, realizou 16 missões com atendimentos voltados para controle de várias doenças. Em 2022, já foram realizadas seis missões em diferentes regiões habitadas pelos indígenas Yanomami.”

Também procurada, a Fundação Nacional do Índio (Funai) alegou não ter “competência institucional” para se pronunciar sobre o assunto.


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